Introdução
A guerra informacional tornou-se um dos eixos centrais das disputas de poder no século XXI. O que antes dependia principalmente de tanques, bases militares e ocupação territorial hoje se apoia em redes digitais, plataformas privadas e fluxos de dados. O objetivo continua sendo o mesmo: influenciar decisões, enfraquecer adversários e proteger interesses estratégicos. No entanto, o campo de batalha mudou. Agora, ele passa pela atenção, pela crença e pela percepção coletiva.
Autores como Manuel Castells, ao analisar a sociedade em rede, mostram como a infraestrutura da comunicação digital passou a integrar a própria estrutura do poder global. Shoshana Zuboff, com o conceito de capitalismo de vigilância, explica como dados de comportamento se transformam em ativo político e econômico. Já John Arquilla e David Ronfeldt propõem a noção de noopolítica: estratégias que visam o controle da “mente coletiva” por meio da informação.
Este estudo aplica a Hipergeopolítica para ler a guerra informacional em quatro camadas — Infraestrutura, Narrativa, Tempo e Sacrifício. A intenção não é moralizar o fenômeno, mas expor sua lógica estrutural, com apoio adicional de Foucault, Byung-Chul Han, Hannah Arendt e Achille Mbembe. A partir dessa lente, a guerra informacional deixa de ser um conjunto de escândalos isolados e passa a aparecer como forma de poder adaptada à era digital.
Infraestrutura da guerra informacional: redes, dados e plataformas
A primeira camada da Hipergeopolítica é a Infraestrutura. Nesse plano, a guerra informacional depende de uma base material clara. Cabos submarinos, satélites, antenas, data centers, servidores, protocolos de internet, sistemas de nuvem e milhões de dispositivos pessoais compõem o terreno físico e técnico onde o conflito ocorre. Sem essa infraestrutura, a guerra informacional simplesmente não existe.
Castells mostra que vivemos em uma sociedade estruturada em torno de redes de informação. Essas redes conectam governos, empresas, instituições financeiras e indivíduos em tempo real. Essa conectividade permite que uma mensagem criada em um ponto específico do planeta circule por múltiplos países em segundos, sem exigir presença física. Consequentemente, fronteiras territoriais tornam-se menos relevantes para a guerra informacional, pois o fluxo de dados atravessa blocos geopolíticos com pouco atrito.
Além disso, plataformas privadas como redes sociais, mensageiros e mecanismos de busca funcionam como infraestruturas híbridas: não pertencem diretamente a Estados, mas impactam diretamente interesses estatais. Nelas, algoritmos decidem o que aparece, o que some, o que viraliza e o que permanece invisível. Zuboff argumenta que essas empresas extraem e processam o que ela chama de “excedente comportamental”: rastros dos nossos cliques, movimentos, preferências e relações. Esses dados alimentam modelos de previsão e modulação de comportamento, o que torna a guerra informacional mais precisa e segmentada.
Por fim, Evgeny Morozov critica o que chama de solucionismo digital — a ilusão de que problemas políticos podem ser tratados como simples desafios técnicos. Essa postura tende a mascarar a dimensão estratégica da infraestrutura digital. Decisões sobre moderação de conteúdo, desenho de interface ou critérios de recomendação são apresentadas como ajustes neutros. Porém, muitas vezes, elas têm impacto direto na forma como a guerra informacional se desenrola e em quais narrativas ganham tração.
Arquitetura algorítmica e logística da guerra informacional
Além da infraestrutura física, a guerra informacional possui uma logística própria. Unidades estatais de ciberoperação, empresas de marketing político, consultorias de dados e grupos coordenados em fóruns e aplicativos atuam como operadores dessa guerra. Eles medem a reação do público, ajustam mensagens em tempo real e exploram falhas técnicas e cognitivas.
Campanhas de influência não dependem apenas de “fake news” isoladas. Elas combinam múltiplas técnicas: criação de contas falsas, amplificação artificial por meio de bots, uso de redes de microinfluenciadores, compra de anúncios segmentados e exploração de algoritmos de recomendação. O efeito se torna cumulativo. Pequenos estímulos, distribuídos com constância e repetição, conseguem alterar gradualmente a percepção de determinados grupos.
Assim, a infraestrutura da guerra informacional não é apenas um conjunto de máquinas. É também um ecossistema logístico e empresarial que transforma dados, atenção e emoção em matéria-prima de intervenção política. Estados podem operar diretamente ou terceirizar parte dessas tarefas para empresas e agentes informais, o que dificulta atribuição e responsabilização.
Narrativa: centro de gravidade da guerra informacional
Se a infraestrutura cria as condições materiais, a Narrativa é onde a guerra informacional se decide. Michel Foucault já havia mostrado que todo regime de poder se apoia em um determinado regime de verdade: um conjunto de regras que define o que é considerado válido, que discurso é legítimo e quem pode falar em nome da realidade. A guerra informacional ataca justamente esse regime. Ela não se limita a negar fatos, mas busca redefinir o que conta como fato.
Na prática, eventos complexos são enquadrados em narrativas simplificadas. Protestos podem ser descritos como “movimento legítimo de resistência” ou como “ameaça financiada por interesses externos”. Medidas de segurança podem ser apresentadas como “proteção da ordem” ou como “ataques à liberdade”. A escolha dos termos nunca é neutra; ela determina, com antecedência, como o público interpretará o que está acontecendo.
É nesse ponto que o conceito de noopolítica, de Arquilla e Ronfeldt, se torna útil. Em vez de concentrar esforços apenas em tanques ou sanções, a noopolítica mira a camada cognitiva. A guerra informacional passa então a ser a disputa por controle da mente coletiva. O objetivo é instalar determinada interpretação como “natural” e deslegitimar qualquer alternativa, ou então, em outra estratégia, multiplicar tantas versões que a própria ideia de verdade comum se dissolve.
Enxame digital, saturação e colapso de confiança
Byung-Chul Han analisa o que chama de enxame digital: uma multidão conectada, reagindo em tempo real a estímulos variados, muitas vezes sem coordenação estável. Esse enxame, segundo ele, produz uma comunicação intensa, mas com baixa capacidade de formação de vontade coletiva sólida. A guerra informacional se aproveita desse cenário. Em vez de tentar construir um consenso, ela explora a volatilidade das reações e a tendência à polarização rápida.
Além disso, Han observa que o excesso de comunicação gera paradoxalmente opacidade. Quando tudo parece transparente, nada é de fato claro. Surge a sensação de que qualquer informação pode ser questionada, e que toda afirmação esconde algum interesse oculto. A guerra informacional opera nesse ambiente de desconfiança. Ela pode, por exemplo, espalhar versões contraditórias sobre um mesmo episódio, não para impor uma narrativa específica, mas para enfraquecer a credibilidade de todas as fontes ao mesmo tempo.
Essa saturação não atua apenas em nível intelectual. Ela desgasta emocionalmente indivíduos e grupos. O fluxo constante de alertas, escândalos, acusações e desmentidos cria uma espécie de fadiga cognitiva. Em consequência, muitas pessoas passam a evitar engajamento profundo com temas complexos e buscam narrativas simples, ainda que frágeis. A guerra informacional ganha força justamente nesse ponto de exaustão.

A guerra informacional no ciclo histórico do século XXI
A terceira camada da Hipergeopolítica é o Tempo. A guerra informacional não surge por acaso. Ela é produto de um ciclo histórico marcado pela transição de uma ordem mediática centralizada para um ambiente de comunicação distribuído. No século XX, jornais, rádios e canais de televisão formavam um triângulo relativamente estável com governos e grandes empresas. A produção de informação era cara, e poucos atores tinham capacidade de falar em escala nacional ou global.
Com a digitalização e a queda dos custos de publicação, esse cenário se desfez. Hoje, qualquer indivíduo pode criar conteúdo, e algoritmos podem amplificá-lo sem mediação editorial clássica. Castells descreve esse movimento como a consolidação da sociedade em rede. A guerra informacional é, portanto, o conflito típico desse novo arranjo. Ela explora a combinação de hiperconectividade, perda de filtros tradicionais e fragilidade de instituições que antes funcionavam como árbitros de credibilidade.
Em termos de ciclo civilizacional, isso significa que vivemos uma fase de transição. Modelos antigos de autoridade — baseados em instituições estáveis e em hierarquias claras — estão em erosão. Novas formas de validação ainda não se consolidaram. A guerra informacional aproveita esse intervalo, em que as sociedades continuam dependendo de informação para decidir, mas não dispõem mais de um centro claro de legitimação de sentido.
Crise de verdade, Arendt e a dimensão política da informação
Hannah Arendt, ao analisar a relação entre verdade e política, alertou para o risco de substituição sistemática de fatos por ficções úteis. Quando isso ocorre, não é apenas a informação correta que sofre; é o próprio espaço público que se desintegra. A guerra informacional acelera esse processo. Ao difundir conteúdos manipulados, versões seletivas ou interpretações enganosas, ela produz um tipo de erosão lenta da confiança.
Essa erosão não se manifesta apenas como “mentira”. Em muitos casos, há uma estratégia combinada: mistura de fatos com interpretações enviesadas, escolha seletiva de dados, ênfase exagerada em certos elementos e apagamento de outros. O resultado é uma percepção distorcida, mas plausível para quem a recebe. A guerra informacional age, assim, mais como engenharia de enquadramento do que como negação pura e simples.
Consequentemente, decisões políticas passam a operar sobre bases frágeis. O debate público se contamina com suspeita generalizada. Todos parecem desconfiar de todos, e qualquer correção é vista como tentativa de censura. Nesse ambiente, a ideia de um “campo comum de realidade”, essencial para o funcionamento da política democrática, entra em colapso gradual.
Sacrifício: mapa da vulnerabilidade cognitiva
A quarta camada da Hipergeopolítica é o Sacrifício. Toda configuração de poder distribui riscos e proteção de maneira desigual. Na guerra informacional, não é diferente. Achille Mbembe, ao falar de necropolítica, descreve como certos corpos e territórios são expostos a formas mais intensas de precarização. É possível pensar algo análogo no plano cognitivo: um mapa de vulnerabilidade informacional.
Grupos com menor acesso à educação crítica, com maior dependência de fontes únicas de informação ou situados em contextos de forte polarização tendem a carregar uma parcela maior do risco. Eles se tornam alvos prioritários de campanhas de influência, pois reagem com mais rapidez a estímulos emocionais e dispõem de menos recursos para verificar dados. A guerra informacional explora essas fissuras, direcionando mensagens específicas para segmentos específicos.
O sacrifício não recai apenas sobre indivíduos. Instituições também absorvem parte do dano. Quando tribunais, universidades, órgãos técnicos ou veículos de comunicação perdem credibilidade, sua capacidade de desempenhar funções básicas diminui. Em casos extremos, políticas públicas relevantes podem ser sabotadas por campanhas de desinformação bem coordenadas. O custo dessa sabotagem é distribuído pela sociedade inteira, mas de modo assimétrico. Alguns grupos sofrem mais com as consequências do que outros.
Estudos de caso sintéticos da guerra informacional
Para entender a guerra informacional de forma concreta, basta observar alguns padrões recorrentes em crises recentes. Em disputas eleitorais, por exemplo, é comum o uso intensivo de boatos dirigidos a nichos específicos, explorando temas como identidade, medo econômico ou ressentimentos culturais. Em conflitos geopolíticos, narrativas concorrentes sobre legitimidade de intervenções, origem de ataques ou responsabilidade por violações ganham espaço nas redes antes mesmo de qualquer investigação formal.
Campanhas de saúde pública também se tornaram alvo. Conteúdos que distorcem dados científicos ou exageram riscos de medidas sanitárias circulam em grupos fechados de mensageria, muitas vezes em linguagem simples e afetiva. Enquanto isso, explicações técnicas, embora mais rigorosas, têm dificuldade em circular com a mesma velocidade. O terreno favorece quem consegue condensar mensagens em frases curtas e emocionalmente carregadas.
Esses exemplos mostram que a guerra informacional não é evento isolado, mas prática contínua. Ela permeia eleições, crises diplomáticas, temas ambientais, debates sobre tecnologia e discussões morais. Em todos os casos, a estrutura é semelhante: infraestrutura digital de alta capacidade, narrativa dirigida, contexto histórico de transição e distribuição desigual de sacrifício cognitivo.
Defesa cognitiva e limites das respostas técnicas
Diante desse quadro, muitas respostas propostas à guerra informacional permanecem restritas à dimensão técnica. Plataformas investem em ferramentas de checagem, etiquetas de aviso, remoção de contas automatizadas e ajustes de algoritmos. Essas medidas têm efeito parcial, mas não eliminam o problema. Em alguns casos, até geram reação contrária, alimentando narrativas de censura ou perseguição política.
Apenas filtros técnicos não resolvem uma crise que também é cultural, histórica e política. Se a guerra informacional se apoia em medos profundos, ressentimentos históricos e desconfiança em relação às instituições, qualquer reação que ignore essas camadas tende a ser superficial. Por isso, a Hipergeopolítica insiste na leitura integrada: Infraestrutura, Narrativa, Tempo e Sacrifício precisam ser considerados ao mesmo tempo.
Estratégias de defesa cognitiva mais robustas passam por educação midiática, transparência mínima sobre lógicas algorítmicas, fortalecimento de instituições de confiança e criação de rotinas sociais de verificação. Não se trata de buscar uma “imunidade perfeita”, algo impossível, mas de reduzir a assimetria entre capacidade ofensiva e proteção coletiva.
Síntese estrutural da guerra informacional
Vista pela Hipergeopolítica, a guerra informacional articula quatro dimensões que se reforçam mutuamente. Primeiro, uma infraestrutura de redes, plataformas e sistemas de dados que permite ações rápidas, distribuídas e dificilmente rastreáveis. Depois, uma disputa narrativa intensa, em que regimes de verdade são contestados ou manipulados por meio da noopolítica e da saturação comunicacional. Em seguida, um tempo histórico de transição, marcado pelo enfraquecimento de antigos filtros de credibilidade e pela ausência de novos critérios sólidos. Por fim, um padrão de sacrifício cognitivo, que expõe determinados grupos a riscos maiores de manipulação e erosão de confiança.
A guerra informacional não substitui completamente conflitos militares ou econômicos. Ela os complementa, ampliando o campo de batalha para o território da mente e da percepção. Ao mapear esse fenômeno com as quatro camadas da Hipergeopolítica, é possível enxergar além das manchetes e identificar a estrutura que sustenta a superfície dos fatos.
Movimentos possíveis
A tendência aponta para a intensificação da guerra informacional. Estados, corporações e atores não estatais seguirão explorando brechas da infraestrutura digital e da psicologia coletiva. A integração entre inteligência artificial, vigilância de dados e produção automatizada de conteúdo tende a tornar operações de influência ainda mais baratas e constantes.
Sociedades que não compreenderem essa dinâmica permanecerão em posição defensiva, reagindo apenas a crises pontuais. Já aquelas que investirem em leitura estrutural, educação crítica e fortalecimento de laços de confiança terão mais margem para resistir a essas pressões. Em qualquer cenário, a guerra informacional continuará sendo uma das formas centrais de disputa de poder no século XXI — e a Hipergeopolítica seguirá sendo uma das poucas ferramentas capazes de torná-la visível em toda a sua profundidade.