Introdução
O BRICS surgiu, à primeira vista, como rótulo de mercado criado por um economista para agrupar grandes economias emergentes. No entanto, em poucas décadas, o termo passou a designar algo bem diferente: uma coalizão política flexível, com ambição de reordenar o sistema internacional e de representar, simbolicamente, o chamado Sul Global. Por isso, o BRICS é um objeto privilegiado para a Hipergeopolítica.
Mais do que um bloco econômico, o BRICS condensa três camadas decisivas:
- infraestrutura material (economia, finanças e diplomacia),
- narrativa simbólica (multipolaridade, dignidade e soberania),
- e um horizonte quase espiritual (reconhecimento de civilizações diversas num mesmo tabuleiro).
Ao analisar o BRICS pelas quatro camadas do Tabuleiro — Infraestrutura, Narrativa, Tempo e Sacrifício — o fenômeno deixa de ser apenas sigla de foro diplomático e se revela como uma das principais frentes da disputa sobre quem tem o direito de dizer o que é “ordem mundial justa”.
1. Infraestrutura: BRICS como bloco de massa crítica
Na camada de Infraestrutura, o BRICS se apresenta antes de tudo como concentração de território, população, PIB e recursos. Esse fator de massa crítica não é retórico; ele fundamenta a pretensão de voz própria no sistema internacional.
1.1 População, território e recursos
Juntos, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul reúnem cerca de 40% da população mundial, vastas áreas territoriais e grande variedade de recursos energéticos, minerais e agrícolas. Essa combinação proporciona ao BRICS potencial de autossuficiência relativa, além de forte poder de barganha em cadeias produtivas globais.
Assim, cada reunião de cúpula não é apenas gesto político; ela explicita ao mundo que uma parcela significativa da humanidade não está situada no eixo atlântico tradicional. A infraestrutura demográfica e territorial serve, portanto, de base silenciosa para a multipolaridade defendida pelo bloco.
1.2 Arquitetura financeira e institucional própria
Em seguida, a cooperação se materializa na criação de instituições: o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o arranjo contingente de reservas, grupos de trabalho temáticos e fóruns setoriais. Essas estruturas procuram funcionar como alternativas, ainda que parciais, a organismos dominados por EUA e Europa, como Banco Mundial e FMI.
Além disso, o debate sobre comércio em moedas locais, ainda em construção, busca reduzir dependência do dólar. Mesmo quando avanços concretos são graduais, a infraestrutura normativa se expande: acordos, memorandos e agendas de cooperação vão abrindo espaço para práticas financeiras e comerciais menos centradas em Washington e Bruxelas.
1.3 Coordenação diplomática e contrapeso discreto
Politicamente, o BRICS coordena posições em organismos multilaterais como ONU e G20. Em propostas de reforma da governança global — por exemplo, para ampliar o Conselho de Segurança — o bloco tende a defender maior representatividade de países em desenvolvimento.
No plano geopolítico duro, o BRICS não é aliança militar. Mesmo assim, ele funciona como contrapeso diplomático: durante sanções e crises, membros do grupo frequentemente adotam posturas mais cautelosas ou neutras em relação a medidas ocidentais. Isso não significa consenso automático, mas mostra que existe alinhamento mínimo na recusa à lógica de punições unilaterais.
Infraestruturalmente, portanto, o BRICS conecta massa demográfica, recursos, instituições financeiras e capital diplomático em uma plataforma comum. Essa base permite que a camada simbólica da multipolaridade tenha ancoragem concreta.
2. Narrativa: o BRICS como mito da multipolaridade justa
Se a Infraestrutura fornece o peso, a Narrativa dá direção. O BRICS constrói, desde o início, uma imagem de si mesmo como símbolo da multipolaridade justa. Essa imagem não nasce apenas de comunicados oficiais; ela é reforçada por discursos de líderes, pela academia e por mídias em diversos países.
2.1 O clube do Sul Global
Cada cúpula do BRICS é acompanhada por frases recorrentes: “mundo mais justo”, “ordem internacional mais inclusiva”, “respeito à soberania” e “reforma da governança global”. Essas fórmulas projetam o BRICS como representante de um Sul Global cansado de padrões duplos em temas como sanções, direitos humanos e intervenções militares.
A narrativa se apoia em contraste simples, porém eficaz: de um lado, um Ocidente descrito como hegemônico e intervencionista; de outro, um bloco de países que afirma praticar cooperação sem interferência nos assuntos internos dos parceiros. Assim, o BRICS se apresenta como “clube de civilizações” que dialogam em pé de igualdade.
2.2 Dignidade, soberania e desenvolvimento soberano
A identidade comum do BRICS não é ideológica no sentido tradicional. Democracias liberais, regimes de partido único e modelos híbridos dividem a mesa. Mesmo assim, prevalece uma linguagem compartilhada centrada em soberania nacional sacrossanta, desenvolvimento autônomo e respeito à pluralidade de sistemas.
O mito mobilizador pode ser resumido assim: “somos nações orgulhosas, com histórias distintas, que ascenderão juntas e reformarão um mundo desigual”. Essa narrativa toca diretamente na memória de colonialismo, dependência econômica e tutela política que marcou séculos de relação entre Europa, EUA e periferias globais.
2.3 Capital simbólico de cada membro
Cada membro contribui com capital simbólico específico. A China traz a imagem de civilização milenar com forte continuidade estatal; a Índia combina tradição civilizacional e democracia; a Rússia mobiliza sua história imperial e soviética; o Brasil se vê como potência regional plural; a África do Sul carrega a narrativa da superação do apartheid.
O BRICS amalgama esses elementos em um mosaico que reforça a ideia de multipolaridade simbólica: várias histórias, várias matrizes culturais e vários caminhos para o desenvolvimento. Em consequência, o bloco desperta em outros países emergentes o desejo de “pertencer” a essa esfera de reconhecimento.

3. Tempo: o BRICS na transição da ordem internacional
A terceira camada da Hipergeopolítica é o Tempo, ou seja, o lugar de um fenômeno no ciclo histórico. O BRICS não nasce no vazio; ele emerge em momento específico da globalização.
3.1 Do unipolarismo ao questionamento estruturado
Após o fim da Guerra Fria, consolidou-se brevemente um cenário interpretado como “momento unipolar” dos Estados Unidos. Instituições, regras econômicas e intervenções militares eram, em grande medida, organizadas sob liderança americana e europeia. Com o crescimento econômico da China, da Índia e de outros emergentes, essa configuração passou a ser questionada.
O BRICS é uma das formas organizadas desse questionamento. Ele simboliza a passagem de uma ordem percebida como centrada em um único polo para uma situação em que vários atores exigem voz e veto.
3.2 Crises globais como aceleradores
Crises financeiras, pandemias e conflitos regionais funcionam como aceleradores desse processo. Em momentos de turbulência, muitos países buscam diversificar parceiros e reduzir dependências. Nesses contextos, o BRICS frequentemente ganha visibilidade, seja como espaço para discutir alternativas financeiras, seja como palco de críticas a sanções e intervenções.
Assim, o bloco funciona como termômetro do desgaste do modelo anterior: quanto maior a insatisfação com instituições tradicionais, maior a atenção voltada para fóruns como o BRICS.
3.3 Expansão potencial e movimento em direção à hipergeopolítica
O interesse de novos países em aderir — Argentina, Irã, Indonésia, Arábia Saudita e outros, em momentos distintos — mostra que o BRICS deixou de ser apenas coalizão de cinco economias. Ele começa a se transformar em campo magnético, atraindo Estados que buscam proteção simbólica e material.
Nesse ponto, a Hipergeopolítica contribui com chave interpretativa: o BRICS não é apenas mais um bloco; ele é sinal de que o sistema internacional já opera em nível de hipergeopolítica multipolar, onde infraestruturas, narrativas e temporalidades civilizacionais são disputadas simultaneamente. Ao tratar o BRICS nesses termos, o blog passa a funcionar como repositório conceitual da hipergeopolítica aplicada.
4. Sacrifício: quem ganha dignidade, quem assume riscos
A última camada, Sacrifício, pergunta quem suporta o custo da multipolaridade simbólica e quem colhe os principais ganhos.
4.1 Ganho de dignidade e reconhecimento
Para muitos países, aproximar-se do BRICS significa recuperar parte de uma dignidade percebida como negada em fóruns onde a agenda é definida por potências tradicionais. A possibilidade de negociar financiamento, comércio e cooperação com menor condicionamento político produz sensação de resgate.
Essa dimensão simbólica é especialmente relevante para nações que viveram ciclos de dominação e que se sentiram tratadas como “casos” a serem administrados por instituições externas. O BRICS oferece narrativa de pertencimento a uma comunidade de pares.
4.2 Riscos de dependências cruzadas e expectativas infladas
Ao mesmo tempo, a multipolaridade simbólica impõe riscos. Se a expectativa depositada no BRICS ultrapassa sua capacidade real de entrega, frustrações podem surgir. Países que reorientam excessivamente sua diplomacia ou suas finanças para dentro da órbita do bloco ficam expostos a crises internas de seus membros, a rivalidades sino-indianas ou a mudanças de prioridade em cada capital.
Além disso, a ausência de critérios muito claros para entrada e para tomada de decisão pode gerar tensões futuras: se alguns atores buscarem hegemonia dentro do grupo, a promessa de igualdade simbólica será testada.
4.3 Sacrifícios internos: uso político da narrativa BRICS
Em cada Estado-membro, a narrativa positiva do BRICS pode ser mobilizada para fins internos. Governos em crise podem usar o pertencimento ao grupo para reafirmar relevância global, mesmo quando políticas domésticas atravessam instabilidade. Assim, a população pode ser convocada a aceitar custos de curto prazo em nome de um projeto de prestígio internacional.
Esse mecanismo não é exclusivo do BRICS, mas nele ganha contornos específicos: a bandeira da multipolaridade justa pode ser usada tanto para reivindicar reformas legítimas da ordem mundial quanto para blindar decisões nacionais pouco transparentes.

Síntese hipergeopolítica: BRICS como multipolaridade simbólica
Lido pela Hipergeopolítica, o BRICS é mais do que uma somatória de economias emergentes. Ele se apresenta como:
- Infraestrutura de massa crítica, instituições financeiras alternativas e coordenação diplomática;
- Narrativa de dignidade, soberania e pluralidade civilizacional, que organiza o imaginário do Sul Global;
- Tempo de transição da ordem internacional, marcado pelo desgaste do unipolarismo e pela busca de novos centros de decisão;
- Sacrifício distribuído de forma desigual, envolvendo ganhos de reconhecimento, riscos de dependência e usos internos da narrativa.
Ao posicionar o estudo do BRICS dentro da Hipergeopolítica, o blog consolida sua função de repositório do conceito: mostra, na prática, como infraestruturas, símbolos, ciclos históricos e custos humanos se cruzam em projetos como a multipolaridade simbólica.
O futuro do BRICS dependerá, portanto, não apenas de indicadores de crescimento ou volume de comércio, mas da capacidade de sustentar seu mito fundador — o de que é possível articular um mundo multipolar cooperativo — sem converter essa promessa em nova forma de fechamento ou dominação. Esse equilíbrio entre pragmatismo e narrativa será o teste decisivo da multipolaridade simbólica que o BRICS pretende encarnar.