Introdução
O eurasianismo ocupa posição singular entre as doutrinas geopolíticas contemporâneas. Embora envolva cálculos estratégicos e projeções territoriais, ele se apoia igualmente em narrativas identitárias profundas e em uma cosmovisão espiritual que pretende orientar o destino da Rússia e de seus aliados. Por isso, o eurasianismo oferece um estudo de caso emblemático para a Hipergeopolítica: articula infraestrutura, narrativa, temporalidade civilizacional e distribuição de sacrifício em um mesmo sistema de sentido.
Ao observar esse modelo, torna-se claro que ele não opera apenas através de fronteiras físicas, capacidades militares ou alianças formais. Pelo contrário, sua força reside na fusão entre geografia, mito e missão. Assim, o eurasianismo transforma a própria política externa russa em projeto espiritualizado, influenciando decisões estratégicas e mobilizando legitimidades internas.
Neste estudo, o fenômeno é analisado nas quatro camadas do Tabuleiro — Infraestrutura, Narrativa, Tempo e Sacrifício — de forma a revelar a estrutura profunda que sustenta essa visão civilizacional.
1. Infraestrutura: o eurasianismo como arquitetura continental de poder
Na camada de Infraestrutura, o eurasianismo aparece como projeto de consolidação de um bloco continental capaz de contrabalançar o eixo atlântico. Esse bloco é imaginado como uma unidade autossuficiente, conectada por recursos, energia, transportes terrestres e alianças políticas. Assim, o discurso civilizacional é sustentado por iniciativas materiais concretas.
1.1 Profundidade estratégica e controle do Heartland
A visão eurasianista parte da premissa de que a massa terrestre eurasiática forma uma plataforma geopolítica decisiva. A lógica lembra, de modo invertido, a leitura de Halford Mackinder sobre o Heartland: quem domina a região central da Eurásia controla a dinâmica do continente. Para estrategistas russos, ampliar profundidade estratégica no interior do bloco é vital para reduzir vulnerabilidades perante potências marítimas.
Por essa razão, corredores de segurança são criados e reforçados em regiões como Cáucaso, Sibéria e Ásia Central. A infraestrutura militar terrestre — bases, ferrovias logísticas, sistemas de defesa aérea — é organizada para projetar poder e impedir cercamento. Em termos práticos, o eurasianismo se sustenta por meio de uma arquitetura física continuamente reforçada.
1.2 Corredores energéticos e rotas transcontinentais
O projeto também envolve expansão de gasodutos, oleodutos e redes ferroviárias que conectam Leste e Oeste. Essa malha reduz dependência de rotas marítimas — vistas como vulneráveis à influência atlântica — e fortalece a autonomia energética russa. Dessa forma, a infraestrutura energética torna-se elemento central do imaginário eurasianista, pois simboliza independência e continuidade interna.
1.3 Organizações multilaterais subordinadas à lógica continental
A União Econômica Eurasiática, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva e parcerias como Rússia–China compõem a camada institucional do projeto. Ainda que essas iniciativas não expressem integralmente o eurasianismo, elas são frequentemente interpretadas como materialização parcial de sua lógica. Assim, a infraestrutura política do bloco é consolidada por meio de tratados, exercícios conjuntos e padronização normativa, reforçando a ideia de um sistema civilizacional autônomo.
2. Narrativa: o mito civilizacional como eixo de sentido do eurasianismo
Embora exista base material, o eurasianismo ganha força real na camada de Narrativa. Ele constrói uma imagem da Rússia não como Estado entre outros, mas como núcleo de uma civilização distinta. Esse enquadramento reorganiza a percepção coletiva, criando fronteira simbólica entre “Eurasianos” e “Atlânticos”.
2.1 Síntese identitária: eslavos, ortodoxos e povos da estepe
O discurso eurasianista combina elementos eslavos, cristianismo ortodoxo, heranças turco-mongóis e narrativas imperiais. Essa síntese é apresentada como fundação de uma civilização original, nem plenamente europeia nem asiática. Por isso, o eurasianismo se afirma como alternativa à lógica ocidental. A Rússia é retratada como ponte e guardiã de valores civilizacionais enraizados na Terra — estabilidade, coesão e transcendência — em contraste com o suposto dinamismo desagregador da modernidade atlântica.
2.2 Terra versus Mar: o mito geopolítico central
Aleksandr Dugin, principal sistematizador do movimento, utiliza a oposição arquetípica entre “Império da Terra” e “Império do Mar”. A talassocracia ocidental seria sustentada por um mito do movimento, do comércio e do liberalismo navegante; já o poder continental russo representaria estabilidade e sacralidade. Assim, a geopolítica se torna mitodrama: cada bloco carrega missão que ultrapassa cálculo de interesse.
Embora o método Synapien trate Dugin apenas como referência descritiva, e nunca normativa, sua influência na narrativa eurasianista é incontornável. O conceito de uma missão civilizacional da Rússia é mobilizado tanto em discursos oficiais quanto em textos de analistas próximos ao Kremlin.
2.3 A defesa dos “valores tradicionais” como narrativa de resistência
Discursos oficiais de Vladimir Putin reforçam a distinção entre valores tradicionais russos e valores liberais ocidentais. A retórica apresenta o eurasianismo como defesa espiritual contra imposições externas — não como intenção expansionista, mas como preservação da identidade. Essa narrativa organiza conflitos recentes como confrontos civilizacionais e não como disputas de poder convencionais.
Assim, a camada simbólica do eurasianismo cria coerência psicológica e moral para decisões políticas, facilitando mobilização interna e legitimação de riscos estratégicos.
3. Tempo: o eurasianismo como retorno de ciclos civilizacionais longos
Na camada do Tempo, o eurasianismo é interpretado como reaparecimento de ritmos antigos. Braudel lembraria que civilizações carregam memória longa, muitas vezes mais influente que conjunturas recentes. Nesse caso, a ideia de Moscou como “Terceiro Rome” reaparece, secularizada, como fundamento da missão eurasiática.
3.1 Continuidade imperial reinterpretada
A expansão czarista, a formação multiétnica da URSS e a atual política de projeção russa são apresentadas como partes de uma mesma linha histórica. O eurasianismo reorganiza esses eventos em narrativa coerente: a Rússia estaria destinada a articular povos da massa continental sob ethos comum. Assim, continuidade é fabricada a partir de elementos dispersos, fornecendo unidade simbólica ao longo de séculos.
3.2 Restauração pós-1991 como ciclo de recomposição
Após o colapso soviético, o país atravessou fase de retração geopolítica. A partir dos anos 2000, o discurso eurasianista passou a oferecer leitura restauradora: o passado imperial e soviético não seria ruptura, mas acumulação de experiências que agora exigem reorganização. Portanto, o retorno da Rússia à cena central não é apresentado como ambição, mas como retomada de trajetória interrompida.
3.3 Conflitos do século XXI como marcos de correção histórica
Crises na Geórgia (2008) e na Ucrânia (2014–2022) são reinterpretadas como eventos destinados a impedir a perda de elementos essenciais do bloco continental. Ainda que essa interpretação seja contestada por diversos analistas externos, ela opera internamente como explicação temporal que justifica sacrifícios presentes em nome de coerência histórica longa.
Dessa forma, o eurasianismo trabalha com tempo profundo: aquilo que parece conjuntural é lido como parte de missão civilizacional plurissecular.

4. Sacrifício: distribuição assimétrica de riscos e lealdades civilizacionais
Na camada de Sacrifício, o eurasianismo revela suas tensões internas. Projetos civilizacionais, quando absolutizados, tendem a demandar custos elevados de grupos específicos. Esse padrão não é exclusivo da Rússia; entretanto, no caso eurasianista, ele ganha forma particular.
4.1 Sacrifício territorial: periferias como zonas de contenção
Regiões de fronteira — como Donbass, Crimeia, Cáucaso e partes da Ásia Central — tornam-se zonas onde pressões estratégicas são concentradas. Nesses lugares, riscos militares e econômicos são mais intensos. Assim, o corpo territorial do bloco é protegido à custa das áreas limítrofes, onde tensões identitárias e disputas políticas são mais agudas.
4.2 Sacrifício moral: narrativa de missão e legitimidade do sofrimento
A lógica civilizacional oferece explicação para perdas humanas e econômicas. Ao apresentar o conflito como defesa da “alma da Eurásia”, aí está uma forma de sacralização do risco. Embora não se trate de religião formal, elementos espirituais são usados para legitimar enfrentamento prolongado. Esse tipo de narrativa, conforme alerta Mbembe, pode transformar populações específicas em portadoras desproporcionais de sacrifício.
4.3 Sacrifício interno: pluralidades comprimidas pela identidade oficial
Quando um projeto civilizacional é centralizado, identidades dissonantes tendem a ser interpretadas como desvios. Em casos extremos, populações que não compartilham da narrativa oficial podem ser tratadas como portadoras de ameaça cultural. Assim, a mitologia eurasianista, se aplicada sem pluralismo, pode funcionar como mecanismo de compressão identitária — e a margem é forçada a absorver o custo.
Síntese estrutural
A análise em quatro camadas revela que o eurasianismo não é apenas ideologia nacionalista, nem somente estratégia de poder. Ele constitui matriz integrativa que combina:
- Infraestrutura — rotas continentais, capacidade terrestre, energia e instituições regionais;
- Narrativa — mitos de Terra versus Mar, herança imperial e missão civilizacional;
- Tempo — retomada de ciclos longos que reforçam continuidades identitárias;
- Sacrifício — distribuição desigual de riscos, mobilizada pela lógica sagrada do bloco.
Ao convergir essas dimensões, o eurasianismo reconfigura percepções internas e produz coerência estratégica. Além disso, influencia decisões militares, diplomáticas e culturais, tornando-se ator invisível por trás do comportamento estatal.
Movimentos possíveis
A tendência é que o eurasianismo siga sendo articulado como linguagem estratégica, principalmente em contextos de tensão com o Ocidente. Ao mesmo tempo, sua força dependerá da capacidade de equilibrar identidade profunda e pragmatismo geopolítico. Se a narrativa civilizacional for absolutizada, tende a produzir rigidez decisória e risco de escalada. Porém, se for usada como enquadramento para coordenação regional, pode facilitar parcerias e reduzir dependências externas.
Por isso, para Estados que dialogam com a Rússia, compreender o eurasianismo é fundamental. Ele permite acessar não apenas interesses materiais, mas também forças simbólicas que moldam decisões. Em um cenário multipolar, a geopolítica deixa de ser apenas cálculo racional e passa a integrar elementos espirituais que retornam ao centro da política internacional.