Introdução: As cidades do futuro já têm dono
Enquanto o debate público ainda discute câmeras, aplicativos e semáforos inteligentes, projetos inteiros de cidades inteligentes privadas estão sendo erguidos em desertos, arquipélagos e zonas francas. Não são iniciativas de planejamento democrático, mas empreendimentos de fundos soberanos, monarquias e conglomerados tecnológicos.
Dubai, Neom, Songdo, Masdar, tentativas como Sidewalk Toronto: todas participam de um mesmo movimento. A cidade deixa de ser um espaço público regulado por um contrato político e começa a funcionar como uma plataforma proprietária. Morar passa a se assemelhar mais a aceitar termos de uso do que a exercer cidadania.
Por trás das promessas de eficiência, sustentabilidade e inovação, surge um outro desenho: governança sem voto, infraestrutura privada, vigilância pervasiva e exclusão algorítmica. O urbano torna-se interface de poder corporativo.
1. Infraestrutura (Camada Material)
Aqui está o hardware das cidades inteligentes privadas: concreto, fibra óptica, câmeras, zonas francas, contratos.
1.1 Urbanismo-from-scratch e capital concentrado
Projetos como Songdo, Masdar ou Neom partem quase sempre de um mesmo padrão:
- construção do zero em áreas vazias ou esvaziadas;
- financiamento por fundos soberanos, consórcios imobiliários, big techs;
- criação de zonas econômicas especiais com regimes fiscais próprios;
- infraestrutura de ponta desde o início: redes 5G, sensores, sistemas integrados.
A materialidade da cidade não é orgânica; é projetada como um campus ampliado.
1.2 Camadas técnicas de controle urbano
A infraestrutura técnica típica inclui:
- redes de câmeras com reconhecimento facial;
- sensores para trânsito, clima, consumo de energia, deslocamento de pessoas;
- cartões, apps ou identidades digitais integradas que centralizam acesso a transporte, serviços, pagamentos;
- centros de controle urbano com dashboards em tempo real.
A cidade é construída como se fosse um grande sistema operacional: cada rua, prédio e fluxo é um módulo plugado na malha de dados.
1.3 Propriedade da infraestrutura e dependência estrutural
Ao contrário das cidades tradicionais, grande parte dessa infraestrutura é:
- de propriedade direta de empresas ou consórcios;
- operada por prestadores de serviços em contratos de longo prazo;
- inscrita em regimes jurídicos especiais que dificultam intervenção estatal plena.
Na prática, quem controla a camada física e digital controla as condições de vida urbana: água, energia, mobilidade, comunicação, segurança.
1.4 Serviços públicos privatizados em escala
Esses projetos tendem a privatizar ou semiprivatizar:
- saneamento, energia, resíduos;
- transporte público e mobilidade;
- segurança e vigilância;
- gestão de espaços públicos, muitas vezes transformados em “ativos gerenciáveis”.
A fronteira entre serviço público e serviço corporativo é borrada. A cidade passa a se parecer com um condomínio expandido, com “facilities” em vez de políticas.
2. Narrativa (Camada Simbólica)
Se a infraestrutura é o corpo, a narrativa é o mito que o torna desejável.
2.1 Utopia smart: limpa, verde, segura
O discurso padrão das cidades inteligentes privadas se organiza em torno de alguns slogans:
- “zero carbono”;
- “mobilidade fluida”;
- “segurança total”;
- “cidade como plataforma de inovação”.
Imagens de arranha-céus de vidro, drones, jardins suspensos e transporte automático constroem um imaginário de futuro inevitável. O marketing urbano funciona como propaganda de produto premium.
2.2 Espectáculo urbano e soft power
Dubai e Neom operam como vitrines ideológicas:
- Dubai projeta eficiência, luxo, estabilidade, conectividade global;
- Neom projeta ruptura futurista, reinvenção civilizacional, narrativa de “salto para o século XXII”.
Essas cidades não vendem apenas imóveis; vendem pertencimento a uma narrativa de vanguarda. São instrumentos de soft power territorializado — urbanismo como propaganda geopolítica.
2.3 Neutralidade da técnica como véu político
O discurso tecnocrático insiste:
- dados substituem ideologia;
- algoritmos são mais racionais que políticos;
- “governança smart” é solução para disfunções democráticas.
Aqui, a narrativa usa o mito da neutralidade técnica para recobrir decisões políticas: quem define que comportamentos são aceitáveis, que padrões são “eficientes”, que usos do espaço são “ótimos”? A linguagem da performance substitui a linguagem do conflito legítimo de interesses.
2.4 Cidadão-usuário: rebranding da condição política
Nos materiais promocionais, moradores aparecem como:
- “residents”, “users”, “members”;
- empreendedores globais, nômades digitais, talentos de alta renda.
A figura do cidadão, com direitos políticos, é substituída pela figura do cliente com direitos contratuais. O urbanismo corporativo reescreve a identidade do habitante: não é sujeito de lei, é usuário de plataforma.
3. Tempo (Camada Histórica)
As smart cities privadas são novas em tecnologia, mas velhas em estrutura de poder.
3.1 Retorno das cidades-Estado, agora corporativas
Historicamente, cidades-Estado como Veneza, Hanseáticas, Singapura moderna ocuparam posições-chave em redes comerciais e financeiras.
As cidades inteligentes privadas atualizam esse padrão:
- territórios compactos com grande densidade de capital e tecnologia;
- regimes jurídicos especiais;
- peso desproporcional nas redes globais de logística, finanças e dados.
É uma nova rodada da velha ideia: unidades urbanas hiperconectadas, semi-autônomas, que disputam protagonismo com Estados nacionais.
3.2 A longa duração da zona franca
Zonas francas, portos livres e enclaves fiscais existem há décadas. O que muda é:
- o salto de “porto/área industrial” para “cidade inteira”;
- a integração radical entre infraestrutura física, digital e normativa;
- o uso de urbanismo-espetáculo como ferramenta de atração de capital e legitimidade.
Dubai e Neom são a versão 3.0 das Zonas Econômicas Especiais: não são mais apenas áreas de produção; são narrativas completas de futuro.
3.3 Do urbanismo modernista ao urbanismo de plataforma
O século XX viu planos modernistas de cima para baixo: cidades setorizadas, superquadras, rodovias internas, zoneamentos rígidos.
O século XXI adiciona:
- urbanismo de dados, com gêmeos digitais e simulações;
- urbanismo como serviço, com gestão terceirizada;
- contratos que substituem planos diretores por SLAs (service level agreements).
A temporalidade aqui é de aceleração: projetos que levariam gerações são condensados em décadas ou menos, com forte controle central.
3.4 O ciclo: sedução, saturação, contestação
O provável ciclo histórico desses modelos tende a passar por quatro fases:
- Sedução: promessa de emprego, segurança, eficiência, prestígio;
- Saturação: percepção de controle excessivo, desigualdades internas, limites de acesso;
- Contestação: demandas por transparência, direitos, participação;
- Reconfiguração: ajustes, abertura parcial, ou replicação em novas áreas mais “maleáveis”.
O ponto em que estamos hoje é majoritariamente o da sedução, com sinais iniciais de contestação (como no caso Sidewalk Toronto).
4. Sacrifício (Camada Ético-Espiritual)
Aqui está a contabilidade oculta: quem é excluído, deslocado, silenciado.
4.1 Comunidades removidas e invisibilizadas
Projetos de cidades do zero frequentemente implicam:
- remoção de populações locais (tribos, comunidades rurais, bairros antigos);
- compensações assimétricas, muitas vezes contestadas por ONGs e organismos internacionais;
- reescrita da memória do território, apagando usos anteriores do solo.
A paisagem futurista é construída sobre lacunas sociais. O deserto raramente é vazio; é tornado vazio.
4.2 Classes serventes em regime de exceção
Por trás das fachadas de luxo:
- trabalhadores migrantes em regimes de semi-servidão, com direitos reduzidos;
- estruturas de moradia segregadas, longe das áreas icônicas;
- fiscalização rígida de conduta, com baixa margem de contestação.
Esses grupos vivem em uma espécie de “andar térreo” do projeto, necessários para que a vitrine funcione, mas excluídos da narrativa oficial.
4.3 Cidadania condicionada ao comportamento
Em cidades densamente vigiadas:
- acesso a espaços, serviços e oportunidades pode ser mediado por perfis de risco, scores e reputações digitais;
- comportamentos considerados “ineficientes” ou “problemáticos” podem levar a exclusão ou pressão silenciosa para saída;
- a ideia de “habitante” torna-se condicionada: você pertence enquanto performa dentro das métricas esperadas.
É uma sociabilidade sob filtro, onde a pertença é sempre revogável.
4.4 Zonas de exceção jurídica permanente
Zonas especiais, regimes próprios, conselhos corporativos formam:
- territórios com leis parcialmente suspensas, adaptadas à conveniência de investidores;
- espaços onde conflitos trabalhistas, ambientais ou cívicos são tratados fora do escrutínio público;
- arranjos em que o “direito à cidade” é substituído por “direito de uso” definido por contratos.
Agamben descreve o estado de exceção como suspensão da norma em nome de uma finalidade. Aqui, a finalidade é eficiência, competitividade, atração de capital.
4.5 Arquétipos do urbano corporativo
Três figuras ajudam a ler a camada sacrificial:
- Leviatã: o aparato de controle que regula entrada, permanência, acesso e saída;
- Mammon: a primazia do cálculo econômico sobre o direito;
- Babel: a cidade-espetáculo que mascara conflitos sob um skyline de vidro.
5. Síntese Estrutural Hipergeopolítica
Hipergeopoliticamente, as cidades inteligentes privadas são:
- Infraestrutura: enclaves de alta tecnologia, integrados a redes globais de dados, logística e finanças, ancorados em regimes jurídicos especiais.
- Narrativa: mitos de eficiência, sustentabilidade e futuro, usados como soft power, propaganda nacional e marketing corporativo.
- Tempo: atualização acelerada de formas antigas — cidades-Estado, zonas francas, urbanismo de vitrine — em um contexto de competição tecnológica.
- Sacrifício: comunidades deslocadas, trabalhadores precarizados, cidadãos convertidos em usuários monitorados, direitos substituídos por termos de uso.
Essas cidades funcionam como laboratórios de um novo contrato urbano: menos Estado, mais plataforma; menos cidadania, mais adesão condicional; menos praça pública, mais interface proprietária.
6. Movimentos Possíveis (não futurologia)
- Se o modelo de cidade inteligente privada continuar sendo promovido como solução rápida de modernização, então mais países tendem a criar enclaves urbanos corporativos, com zonas de exceção jurídica e alta vigilância.
- Se a governança algorítmica não for regulada com transparência e participação, então decisões sobre acesso a moradia, mobilidade e serviços urbanos podem se tornar progressivamente opacas e incontestáveis.
- Se movimentos urbanos e governos locais fortalecerem experiências de smart cities democráticas (orçamento participativo digital, plataformas abertas, soberania de dados), então surgirá um contra-modelo capaz de disputar o imaginário com Dubai e Neom.
- Se conflitos trabalhistas, ambientais e de direitos humanos em megaprojetos urbanos se acumularem, então a narrativa de “cidade utópica” pode ser tensionada por boicotes, litigância estratégica e pressão internacional.
- Se Estados nacionais se tornarem dependentes das infraestruturas digitais privadas que sustentam essas cidades, então a correlação de forças entre governos e corporações tenderá a deslocar-se ainda mais em favor destas últimas.
7. Conclusão
As cidades inteligentes privadas são menos sobre iluminação LED e mais sobre poder. Elas reorganizam quem decide, quem tem acesso, quem é visto e quem pode ser descartado dentro do espaço urbano.
Ao converter a cidade em plataforma, esses projetos:
- transferem infraestrutura crítica para mãos privadas;
- usam narrativas de eficiência e sustentabilidade como blindagem simbólica;
- aceleram um ciclo histórico de enclaves urbanos semi-autônomos;
- distribuem o sacrifício entre comunidades removidas, trabalhadores invisíveis e moradores transformados em usuários monitorados.
A questão central não é se a cidade será smart, mas quem controla o código que a governa.
A disputa já não é apenas pelo território físico, mas pelo modelo de urbanismo que definirá o que significa viver, circular e pertencer no século XXI.
8. FAQ
1. O que são cidades inteligentes privadas?
São cidades planejadas e operadas com forte uso de tecnologia digital (sensores, IA, IoT), mas em que a infraestrutura, os dados e boa parte da governança pertencem a corporações, fundos ou consórcios privados, e não a instituições democráticas tradicionais.
2. Qual a diferença entre uma cidade inteligente pública e uma privada?
Em uma cidade inteligente pública, a tecnologia é implementada por governos com algum grau de controle social e accountability político. Nas cidades inteligentes privadas, o modelo é gerencial: o morador atua mais como usuário de um serviço urbano regido por contratos, com menor espaço para participação política direta.
3. Por que Dubai e Neom são exemplos centrais nesse debate?
Porque combinam alta densidade tecnológica, regimes jurídicos especiais, forte controle central e uso intenso de narrativas futuristas para atrair capital e legitimidade internacional, operando como vitrines de um urbanismo corporativo e tecnocrático.
4. Quais são os principais riscos das cidades inteligentes privadas?
Entre os riscos estão: vigilância massiva sem transparência, exclusão algorítmica de grupos considerados “ineficientes”, remoção de comunidades locais, enfraquecimento de direitos trabalhistas e substituição da cidadania por relações contratuais assimétricas.
5. Existem alternativas às cidades inteligentes privadas?
Sim. Experiências de smart cities com foco em transparência, código aberto, participação cidadã e soberania de dados — como plataformas de decisão pública digital em cidades como Barcelona ou Taipei — apontam caminhos para integrar tecnologia sem abdicar de democracia e controle social.