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Mapa Estratégico do Poder Invisível

A origem socialista do fascismo: mito ou realidade? Uma análise hipergeopolítica

Estátua de Janus com duas faces opostas, representando a tensão entre raízes socialistas e deriva autoritária na origem do fascismo.

Introdução: por que discutir a origem socialista do fascismo? A palavra “fascismo” saiu dos livros de história e entrou na retórica diária. Hoje, ela aparece em debates de rede social, discursos parlamentares e manchetes, quase sempre como insulto. No entanto, quando tudo vira fascismo, quase nada é compreendido com precisão. Por isso, a pergunta sobre a origem socialista do fascismo importa. Em geral, aprende-se que o fascismo nasceu como movimento de extrema-direita, aliado ao grande capital e inimigo mortal do socialismo. Entretanto, autores como A. James Gregor e Zeev Sternhell sugerem uma genealogia mais incômoda: o fascismo teria brotado de dentro da própria esquerda revolucionária, em particular do sindicalismo soreliano e de intelectuais marxistas desiludidos. Essa disputa não é apenas acadêmica. Ela afeta como rotulamos adversários, como interpretamos crises políticas e como identificamos ameaças autoritárias. A seguir, o tema será lido em chave hipergeopolítica, camada por camada. 1. Infraestrutura (Camada Material) Aqui interessa o chão histórico: partidos, sindicatos, Estado, guerra, classes e instituições que tornaram possível o fascismo. 1.1 Estrutura política da Itália pré-fascista No início do século XX, a Itália era: O liberalismo italiano integrava pouco as massas. Assim, a representação política era estreita, a corrupção recorrente e a sensação de abandono generalizada. Esse vazio de mediação abriu espaço tanto para projetos socialistas quanto para respostas nacionalistas agressivas. 1.2 Crescimento socialista e sindicalismo revolucionário Nesse ambiente, o Partido Socialista Italiano (PSI) e o sindicalismo ganharam massa crítica. O PSI reunia: Além disso, greves, ocupações de terras e mobilizações urbanas tornaram-se frequentes. O sindicalismo revolucionário, inspirado em Georges Sorel, rejeitava o caminho eleitoral e priorizava: Essa infraestrutura militante forneceu quadros, métodos e imaginário para parte do fascismo nascente. 1.3 A Primeira Guerra como acelerador A entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial, em 1915, reconfigurou o tabuleiro. Enquanto a direção socialista apostava na neutralidade, setores nacionalistas e parte dos sindicalistas revolucionários passaram a defender a guerra como: Mussolini, então dirigente socialista, rompeu com o PSI justamente nesse ponto, alinhando-se ao intervencionismo. Muitos dos que seguiram esse caminho eram ex-militantes de esquerda. A guerra criou redes de veteranos armados, acostumados à violência extrema e disponíveis para novas organizações paramilitares. 1.4 Pós-guerra, “anos vermelhos” e paramilitarismo O pós-guerra somou: As elites temiam um cenário à la Revolução Russa. Ao mesmo tempo, parte da classe média sentia-se encurralada entre miséria e caos. Nesse contexto, os fasci di combattimento de Mussolini surgiram como milícia de choque: Portanto, a infraestrutura material do fascismo combinou: É nesse enredo concreto que qualquer debate sobre “origem socialista do fascismo” precisa se ancorar. 2. Narrativa (Camada Simbólica) Agora importa o campo dos discursos, mitos e enquadramentos que moldam a percepção do fascismo e de suas origens. 2.1 Fascismo como extrema-direita: o frame dominante A narrativa mais difundida, especialmente após 1945, apresenta o fascismo como: Esse enquadramento enfatiza: Ele é coerente com a prática consolidada dos regimes fascistas, que destruíram organizações socialistas e integraram empresários na estrutura corporativista. 2.2 Origem socialista do fascismo: a narrativa alternativa Em contraste, a tese da origem socialista do fascismo destaca: Autores como A. James Gregor e Zeev Sternhell descrevem o fascismo inicial como heresia ou mutação interna da esquerda revolucionária, não como fenômeno totalmente externo a ela. Nessa leitura, o fascismo teria nascido da fusão entre: 2.3 Mitos intelectuais: Sorel, Gentile, Labriola Três figuras ajudam a entender o campo simbólico: A apropriação seletiva dessas ideias construiu um imaginário em que: 2.4 Lakoff, Barthes e o uso atual da palavra “fascismo” Aplicando a lógica de enquadramento de George Lakoff, “fascismo” funciona hoje como frame moral totalizante: ao chamarmos alguém de fascista, não descrevemos apenas programa político, mas definimos uma posição ética absoluta. Roland Barthes lembraria que o termo virou mito: um signo carregado, capaz de condensar medo, repulsa e mobilização. Consequentemente, o debate sobre sua origem se polariza: Em ambos os casos, o conceito é mobilizado mais como arma retórica do que como categoria analítica. 3. Tempo (Camada Histórica) Aqui, o foco é o ciclo histórico em que fascismo e socialismo se cruzam. 3.1 Crise do liberalismo e bifurcação de respostas Entre o fim do século XIX e o pós-Primeira Guerra, o liberalismo europeu enfrentou: Diante disso, duas grandes famílias de resposta emergiram: O fascismo ocupa um ponto de interseção: adota métodos de mobilização de massa típicos da esquerda, mas orienta a energia para um projeto ultranacionalista. 3.2 Continuidade e ruptura com o socialismo Ao longo do tempo: Assim, a origem socialista do fascismo pode ser pensada em termos de genealogia: o movimento nasce em diálogo com correntes marxistas e sindicalistas, mas se afasta delas ao consolidar poder e alianças com o grande capital. 3.3 Fascismo, comunismo e o século dos extremos No século XX, fascismo e comunismo foram frequentemente descritos como sistemas espelhados: Por isso, observadores da época falaram em “fascismo vermelho” (para o regime soviético) e “comunismo negro” (para o fascismo). Essa simetria reforça a ideia de parentesco estrutural, sem apagar diferenças ideológicas profundas. 3.4 No tempo presente: reuso estratégico da tese Hoje, a discussão sobre a origem socialista é reativada por motivos distintos: No ciclo contemporâneo, a disputa sobre o passado serve como arma na disputa sobre o presente. 4. Sacrifício (Camada Ético-Espiritual) Esta camada pergunta: quem paga a conta do fascismo e de suas narrativas? 4.1 Corpos sacrificados pelo fascismo histórico No plano histórico concreto, o fascismo: Ou seja: mesmo que alguns de seus quadros tenham vindo da esquerda, os principais alvos do fascismo foram justamente trabalhadores organizados, militantes socialistas e comunidades consideradas “indesejáveis”. 4.2 A quem interessa a disputa de origem? No plano simbólico atual, a disputa em torno da origem socialista do fascismo redistribui culpas e inocências: O risco, em ambos os casos, é sacrificar a precisão histórica em troca de vantagem retórica. 4.3 Memória histórica e respeito às vítimas Do ponto de vista ético, o uso descuidado da palavra “fascismo” também tem custo: Nesse sentido, há um sacrifício de memória: a experiência histórica se torna mero instrumento de disputa presente. 4.4 Arquétipos em jogo Três arquétipos ajudam