A Caçada Global ao Narcoterrorismo: Venezuela no Tabuleiro Invisível do Poder

1. O Enigma Venezuelano: Quando o Alvo é Maior que o Homem A Venezuela não é apenas mais um país em crise na América Latina. Com pouco mais de 30 milhões de habitantes, tornou-se palco de uma disputa que ultrapassa fronteiras, narrativas e até os próprios limites da política tradicional. A pergunta que inquieta estrategistas de Washington, Brasília, Moscou e Pequim é simples e brutal: quem controla os fluxos invisíveis que passam pela Venezuela? Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, não é visto apenas como líder de um regime autoritário. Ele é colocado como peça central em uma narrativa internacional que mistura terrorismo, narcotráfico e guerra informacional. Uma narrativa que já foi usada antes — contra Manuel Noriega, no Panamá (1989); contra Pablo Escobar, na Colômbia (anos 1990); e contra chefes de cartéis mexicanos nos anos 2000. O detalhe incômodo é que essa narrativa nunca foi apenas sobre indivíduos. Sempre foi sobre fluxos de poder. 👉 Pergunta-chave que guia este artigo: a caçada a Maduro representa o fim de um regime… ou o redesenho das regras da soberania no século XXI? 2. A Guerra às Drogas: Linha do Tempo de uma Estratégia Global 2.1 A gênese proibicionista (1961) Em 1961, 73 países assinaram a Convenção Única sobre Entorpecentes. Na superfície, era um pacto humanitário: proteger a saúde pública contra os riscos das drogas. Mas, no subterrâneo, inaugurava-se um campo de batalha invisível que justificaria intervenções, espionagem e militarização em nome da ordem internacional. A lógica fundadora era simples: Foi nesse terreno que cresceu a noção de narcoterrorismo — a fusão simbólica entre tráfico e terrorismo, criada para ampliar os poderes de repressão. 2.2 A exportação americana (anos 1970–1980) Nos anos 1970, com o presidente Richard Nixon declarando a “War on Drugs”, o proibicionismo ganhou escala. O DEA (Drug Enforcement Administration), criado em 1973, se tornou o braço internacional dessa cruzada. Nos anos 1980, sob Ronald Reagan, os EUA exportaram esse modelo para a América Latina: A regra era clara: quem não colaborasse com Washington poderia ser tratado como cúmplice do crime organizado. 2.3 Noriega e a intervenção no Panamá (1989) Manuel Noriega, general panamenho e ex-aliado da CIA, foi acusado de narcotráfico e de ligações com cartéis colombianos. Em 1989, os EUA lançaram a Operação Just Cause: 👉 O caso Noriega consolidou o modelo de caçada a líderes como instrumento de política externa. 2.4 Escobar e a Colômbia (1990–1993) Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medellín, foi elevado ao status de inimigo público número um. Mas o resultado foi ambíguo: o cartel se fragmentou, e a violência se espalhou ainda mais pela Colômbia. 2.5 México e a militarização (anos 2000) Com a ascensão dos cartéis mexicanos (Sinaloa, Los Zetas), o governo dos EUA impulsionou a Iniciativa Mérida, destinando bilhões de dólares em ajuda militar e tecnológica. O padrão se repetia: cada vez que um “alvo” caía, o mercado se reorganizava em novas rotas e novos cartéis. 2.6 O salto para Caracas (2025) Agora, em 2025, a lógica atinge um chefe de Estado em exercício: Nicolás Maduro. 3. A Venezuela como Nó Estratégico A Venezuela não entrou nesse tabuleiro por acaso. Três fatores explicam sua centralidade: 3.1 Petróleo: o poder clássico O país detém as maiores reservas provadas de petróleo do planeta — mais de 300 bilhões de barris, superando Arábia Saudita. Desde a ascensão de Hugo Chávez, em 1999, a PDVSA (Petroleos de Venezuela) foi usada como arma de política externa, garantindo alianças com China, Rússia e Cuba. 3.2 Cocaína: a commodity ilícita Segundo a UNODC (2024), a Venezuela se consolidou como corredor logístico do narcotráfico: O Cartel de los Soles, composto por oficiais de alta patente, é acusado de administrar esse fluxo em conluio com autoridades estatais. 3.3 Dados e algoritmos: o novo território No século XXI, a soberania não se mede apenas em barris ou hectares. Mede-se em fluxos digitais. 👉 Pela primeira vez, um chefe de Estado é caçado não só com tropas ou aviões, mas com linhas de código. 4. Maduro como Símbolo: O Inimigo Perfeito Por que Maduro é o alvo ideal dessa narrativa? A figura de Maduro concentra todos os elementos necessários para o rótulo de “narcoterrorista global”: petróleo, cocaína, alianças estratégicas com rivais de Washington e repressão interna. 5. Tecnofeudalismo em Ação: O Código como Nova Fronteira de Guerra Se no século XX a soberania se media em território e barris de petróleo, no século XXI ela é calculada em linhas de código e fluxos digitais. Essa mudança marca a passagem do capitalismo global para o que Yanis Varoufakis chamou de tecnofeudalismo: um sistema em que o poder já não pertence apenas a Estados ou mercados, mas a plataformas digitais e corporações que controlam infraestruturas invisíveis. 5.1 As armas invisíveis 5.2 Venezuela como laboratório A perseguição a Maduro simboliza a primeira vez que um chefe de Estado é combatido simultaneamente em três dimensões: 👉 Isso torna a Venezuela um laboratório vivo da guerra híbrida. 6. Impacto Regional: Brasil, Colômbia e Guiana sob Pressão A caçada não termina em Caracas. Seus efeitos colaterais se espalham pelos vizinhos. 6.1 Brasil: Entre Roraima e o Itamaraty O Brasil é talvez o país mais diretamente afetado. Além disso, grupos criminosos brasileiros como o PCC e o Comando Vermelho têm expandido influência nas rotas do norte, aproveitando a fragilidade da fronteira. 6.2 Colômbia: Paz ameaçada A Colômbia, historicamente o epicentro do narcotráfico, vive um paradoxo. A pressão americana sobre Maduro pode reacender tensões internas colombianas, especialmente nas fronteiras compartilhadas. 6.3 Guiana: o Essequibo em chamas A Guiana, país vizinho à Venezuela, tornou-se foco de disputa após a descoberta de imensas reservas de petróleo offshore na região de Essequibo. 👉 O impacto regional mostra que a caçada não é só contra um líder, mas contra toda a estabilidade da América do Sul. 7. O Futuro do Proibicionismo: Três Cenários A grande questão que emerge é: qual o futuro da guerra às drogas? Décadas de repressão não reduziram o consumo. Ao contrário: Cenário 1 – Escalada da narrativa do narcoterrorismo